I
Onde eu queria perder-me, numa Lua distante do corpo, dentro do
coração. Não é preciso que estejas
aqui, ao meu lado para te sentir dentro de mim.
Desculpa-me se não te falo da morte, das desgraças
alheias, das vergonhas que proliferam por esse mundo fora, hoje
apetece-me divagar num mundo diferente, aquele que o Willie Wonka
me apresentou, um dia sentado numa sala de cinema, escura, para que
pudesse estudar melhor a lição que ele me queria
transmitir. Podes dizer que estou louco, que o Willie Wonka
não existe, mas deixa-me que te diga, nunca estive
tão lúcido na minha vida de nervos e inquietas
frustrações e sim, o Willie Wonka existe, e os
buracos negros também, e só temos que ouvir o nosso
próprio respirar, sentir a nossa pulsação para
optar pela melhor solução. Acreditas?
A terra se calhar já gira ao contrário e os
relógios nunca mostraram a hora certa, mas quando passeava
pelas ruas desertas, apesar das multidões escondidas na sua
solidã, olhava para a frente e via um arco-íris,
algumas crianças a brincarem, sem medo das
proíbições, de serem internadas pela sua
natural infantilidade. Sabes, não havia guerras, nem
canhões, o He-Man e a playstation eram meras miragens, e na
hora do recreio todos tinham a merenda que traziam de casa, onde
não havia miséria, nem a falta de um qualquer afago.
Apenas utopia. E achas que é mau ser utópico? Para
que serve a vida então?
Vivemos na desgraça das segundas-feiras
- Ena que chatice, amanhã é dia de trabalho!
quando há quem não tenha Domingo, sangue
suficiente nas mãos para aquecer o seu próprio
coração, apenas os restos da embalagem onde estava um
frigorífico, na porta da sede de uma multinacional, tapados
até à cabeça e nem nos desviamos para ver se a
imobilidade se deve ao frio, ou à morte ter sido a ultima
visita, antes de passarmos por lá...
- Que vergonha, isto! Capitalistas é o que provocam
à sociedade!
- Engano o seu, o anterior presidente da Câmara era
comunista, esses bandalhos que comem criancinhas ao
pequeno-almoço...
- Cale essa boca imunda, sua porca!
- Ai que horror! Ai que horror! Já não há
respeito pelos mais velhos!
- Querias o Salazar não é minha mula?
- Havias de falar assim
- Xô... põe-te na sarjeta que é lá o
teu lugar...
-Ó da guarda, ó da guarda!!! Estou a ser
violada!!! Aiiiiiiii!
- Mula! - entredentes e a destapar o sem-abrigo que afinal
estava vivo!
II
Seguia caminho naquelas avenidas cheias de pessoas que
caminhavam rumo à malfadada rotina de que tanto se
queixavam, mas nada faziam para mudar.
Estava na Avenida de Roma, vislumbrava ao longe o Teatro Maria
Matos, era dia de concerto, A Naifa ia lá tocar e na
fronteira do perigo de um meliante a correr com a mala de uma
senhora já com pouca mobilidade, parei, deixei-o passar e
segui para o Teatro. Afinal também tinha a minha
indiferença pelos males do mundo. Reconhecera a velha como
sendo aquela que clamava pelo Salazar, sal e azar como já
ouvira noutras ocasiões.
- Minha querida, não estás mesmo farta de ver A
Naifa?
- Não, nunca, jamais em tempo algum, vamos lá ver
se desta vez eles tocam a Fé... e Deus queira que ela
contrinue sem se conseguir masturbar....
- Eh, Eh, Eh, havia de ser bonito...
Do show apenas me lembro da companhia da minha amiga e do
começo a sós da Mitó 'porque me traíste
tanto', lindo, como linda é a sua mão dócil,
macia e que um dia ia perdendo para sempre! Depois a música
perfeita para o Festival da Eurovisão: A Desfolhada, ainda
melhor na voz celestial da Mitó
III
Ah e tu que estás aí a ler isto, procura nos
traços de uma memória intensa quantas vezes te
lembras de uma mão, seja ela macia ou curtida pelo tempo.
Apenas te digo que só me dá a mão quem
não se proíbe de viver e eu gosto mesmo dessa luta:
VIVER... acredita é contagiante para quem te
rodeia!
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